Robert Scheidt ainda curte o hexacampeonato mundial
ZDL
27/09/2002
Velejador fala sobre a sua vitoriosa carreira na
classe Laser
São
Paulo (SP)
- Pouco mais de uma semana depois de conquistar o inédito
hexacampeonato mundial da classe Laser, no Hyannis Yatch Club, na
cidade de Cape Cod, nos Estados Unidos, o velejador brasileiro Robert
Scheidt ainda se emociona com a façanha. Afinal, é
o único atleta do país a ganhar seis títulos
mundiais num esporte olímpico. Mesmo aproveitando um curto
período de férias das competições (não
tem treinado na água, mas faz exercícios físicos
todos os dias), Robert revela detalhes de sua obstinação
na busca dos títulos nesta entrevista.
Campeão
olímpico em Atlanta, em 1996, e medalha de prata em Sydney,
em 2000, ele elegeu o seu novo objetivo: conquistar a sua terceira
medalha olímpica em Atenas, em 2004. A meta é tão
clara para Robert que ele troca qualquer futura vitória do
futuro pela emoção de subir ao pódio na Grécia.
Vou me preparar a partir de agora para chegar a Atenas na
minha melhor forma física e técnica, diz o atleta
paulista, de 29 anos, patrocinado pela BrasilPrev, Varig, Bingo
Augusta e Volvo Car e integrante da Equipe Permanente de Vela Olímpica
Petrobras. Quero velejar também o máximo possível
na raia olímpica para dominar todos os seus segredos.
Seguem as perguntas
e respostas da entrevista com Robert Scheidt, que na terça-feira
recebeu a Cruz do Mérito Desportivo das mãos do presidente
Fernando Henrique Cardoso no Palácio da Alvorada, em Brasília:
Num país
de tricampeões mundiais, como Ayrton Senna, Nelson Piquet
e Rodrigo Pessoa, como é ser hexa, ter mais títulos
do que o Brasil já conseguiu no futebol?
Robert - Me sinto muito realizado pela conquista do hexa,
já que é um feito que entrará para a história
do esporte nacional. Mas não gosto de comparações
com outros atletas. Não acho certo, já que cada esporte
tem um nível diferente de dificuldade.
De todos
os títulos (95, 96, 97, 2000, 2001 e 2002), qual foi o mais
difícil de conquistar? Por quê?
Robert - Todos os títulos tiveram dificuldades. Cada
Campeonato Mundial tem uma história diferente. Este ano,
a experiência e a regularidade me ajudaram a conquistar o
título. Mesmo assim, considero que todas as conquistas tiveram
as suas dificuldades.
Antes do
Mundial, você não foi bem na Semana Pré-Olímpica
de Atenas. Isso não te atrapalhou?
Robert - Não. Deu para perceber que o local em que
o torneio de iatismo da Olimpíada vai ser disputado é
muito difícil, com dificuldades de vento e de correnteza.
Fiquei numa posição ruim, que foi o 12.º lugar.
Apesar disso, o torneio grego foi legal porque não era minha
prioridade e me ajudou. Cheguei mais humilde no Mundial. Resolvi
disputar regata a regata, e acabei ganhando a competição
que era a mais importante desta temporada.
A Classe
Laser é sempre muito competitiva. Já dá para
apontar quais serão seus grandes adversários até
a Olimpíada?
Robert - A Laser possui uma renovação muito
grande. Toda temporada surgem novos atletas fortes. Este ano, o
inglês Paul Goodison, os suecos Karl Suneson e Daniel Birgmark
e o sul-africano Garreth Blanckenbergen foram muito bem. Eles devem
continuar dando trabalho nos próximos anos.
Você
pretende se despedir mesmo da Laser na Olimpíada de Atenas?
Robert - Acho que vou continuar na classe até o Mundial
de 2005, se ele realmente for confirmado para Fortaleza. Só
vou fazer isso se a competição for realizada no Brasil.
Minha intenção inicial era me despedir da classe em
Atenas, tentando a minha terceira medalha olímpica, em 2004.
Antes dos Jogos da Grécia, terei o Mundial da Espanha, em
2003, e o Mundial da Turquia, em 2004. Mas a grande meta, repito,
é a Olimpíada de Atenas. Quero velejar o máximo
possível nas raias oficiais. Como já disse, as condições
locais são muito difíceis. Tenho muito tempo para
me decidir em qual classe velejarei depois. Comprei um barco de
Star na Itália, mas ainda não sei se vou investir
nele. Há o risco de a classe deixar o programa oficial olímpico.
O iatismo
não está entre os esportes mais populares do Brasil.
Isso atrapalhou ou dificultou sua carreira?
Robert - Tive problemas, mas hoje conto com patrocinadores
muito fiéis, que me apoiam e incentivam. A BrasilPrev, o
Bingo Augusta, a Varig e a Volvo me ajudam muito. Faço parte
da Equipe Permanente de Vela Olímpica da Petrobras. Acho
que os dirigentes do iatismo deveriam se preocupar em facilitar
o acesso das competições ao público. No Mundial
de Cape Cod, as regatas foram disputadas a cinco milhas náuticas
da costa.
Quando você
anda por aí, as pessoas sabem quem você é? Sua
popularidade é maior lá fora do que aqui no país?
Robert - Tenho sido reconhecido cada vez mais, óbvio
que depende do lugar em que vou. Mas tenho dado mais autógrafos
nas ruas e em restaurantes. Na volta dos Estados Unidos para o Brasil,
dei diversos autógrafos no vôo da Varig. Não
tenho a popularidade de um Ronaldinho, mas estou feliz. Ainda posso
fazer coisas normais como ir ao cinema e ao shopping.
Compararam-no
a Jordan, a Pelé, a Senna e a Guga na dimensão do
que você representa para o seu esporte. Com o qual deles você
se identifica mais?
Robert - Tenho vários ídolos no esporte e é
sempre uma honra ser comparado com atletas do nível de Jordan,
Pelé, Senna e Guga. Quando criança, meu ídolo
era Pelé. Depois, Ayrton Senna. O Torben Grael sempre foi
uma referência no iatismo. Guga é meu amigo, um excelente
atleta. O tênis, aliás, foi o meu primeiro esporte
sério.
Como foi
ter recebido a Cruz do Mérito Desportivo após a conquista
do hexacampeonato mundial das mãos do presidente Fernando
Henrique Cardoso?
Robert - Foi um reconhecimento importante por tudo que tenho
conseguido no esporte. Estou passando pelo momento mais feliz de
minha carreira e foi uma honra ser recebido pelo presidente no Palácio
da Alvorada e ganhar a Cruz do Mérito Desportivo, uma distinção
importantíssima.
Quanto mais
experiente melhor? No ano passado, você foi eleito o melhor
velejador do mundo pela Federação Internacional (Isaf)
e o melhor atleta do Brasil pelo COB. E você se considera
melhor ainda este ano?
Robert - Minha campanha este ano foi mais consistente do
que a do ano passado. Além de ganhar o Mundial da Classe
Laser, venci também o Mundial da Isaf e a Semana de Vela
de Spa, na Holanda, uma das mais importantes do planeta. Foi duro
chegar a ser o número um do mundo, mas é mais difícil
ainda manter-se em primeiro.
Como você
consegue motivação para continuar se superando num
esporte tão competitivo como a vela?
Robert - O desafio me motiva. Quando entro na regata, esqueço
de tudo o que passou e luto por mais uma conquista. Procuro lidar
bem com a tensão e a responsabilidade. Em Cape Cod, por exemplo,
acordava no meio da noite e ia para a rua ver se havia vento. Sentia
aquele friozinho na barriga. As conquistas são melhores depois.
Você
tem disputado competições de Vela Oceânica.
Pretende se dedicar mais a este tipo de disputa?
Robert - Gosto muito de Oceano. É um trabalho interessante
de grupo. Agora, mesmo participei da Regata Recife-Fernando de Noronha
no catamarã Adrenalina Pura. Durante o Mundial de Laser de
Cape Cod, o velejador Peter Fox me convidou para acompanhar em março,
na Nova Zelândia, a disputa da Americas Cup, a mais
tradicional competição de Vela Oceânica do mundo.
Faço questão de aceitar o convite, de ver de perto
o trabalho das equipes num evento tão especial.
Se não
fosse atleta, o que você seria?
Robert - Provavelmente, Administrador de Empresas, que é
minha formação.
O que você
está lendo?
Robert - Intimação, de John Grishman.
Um romance legal.
E música?
Robert - O bom rock. Ouço tudo o que é Rolling
Stones, Led Zeppelin e Van Halen.
Você
tem ido ao cinema?
Robert - Gosto muito de cinema, mas não vou com a
freqüência que gostaria. O último filme que assisti
foi Cidade de Deus. É um bom filme, que mostra
a realidade brasileira.
Qual será
a sua próxima competição?
Robert - Recebi esta semana um convite para velejar na França,
mas não vou aceitar. Vou competir na Santos-Rio e no Circuito
Rio, no final de outubro e começo de novembro. Acho que vou
no Adrenalina Pura na Santos-Rio e no Odoyá no Circuito Rio.
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ZDL João
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